Luís Campos

Que razões o levaram a aceitar este convite da SPLS para Membro Honorário?

Vejo este convite como um reconhecimento à ideia da criação do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA) , à relevância do seu propósito e ao seu trajeto nestes três anos de existência.

O que nos motivou para criarmos o CPSA? Acredito que, conscientes do impacto que as alterações ambientais estão a ter na saúde das populações, nós, profissionais de saúde — que, além de cuidadores, somos também advogados dos doentes — temos o dever ético de nos envolver neste desafio global.

Não podemos comprometer o futuro das próximas gerações, que são as dos nossos filhos e netos, nem desperdiçar o capital de confiança que a sociedade deposita em nós. Precisamos de fazer ouvir a nossa voz para afirmar que não estamos perante um problema exclusivo de ambientalistas ou jovens radicais, mas sim diante de uma crise que nos afeta a todos nós.

A fundação do Conselho Português para a Saúde e Ambiente (CPSA), aconteceu em 19 de outubro de 2022, e teve como grande objetivo estabelecer uma rede colaborativa de organizações ligadas à saúde, com vista a minimizar o impacto das alterações ambientais na saúde, promover a redução da pegada ecológica do setor da saúde, sensibilizar o público e educar os profissionais, fomentar a investigação nesta área, e ajudar o sistema de saúde a preparar-se para o aumento do risco de eventos extremos e inesperados.

Acreditamos que estamos perante o desafio mais complexo do nosso tempo. E, perante tamanha complexidade, são necessárias soluções integradas. Foi por isso que optámos por não criar uma aliança monoprofissional, como aconteceu noutros países, mas sim por congregar toda a diversidade de organizações relacionadas com a saúde, o que é inédito a nível internacional.

A rapidez com que esta aliança tem crescido comprova a sua pertinência. Em menos de três anos, já reunimos 105 associados, incluindo associações de saúde, ordens profissionais, sociedades científicas, instituições académicas, laboratórios farmacêuticos, empresas de dispositivos médicos e equipamentos, institutos de investigação, grupos privados de saúde, unidades locais de saúde, associações de doentes, municípios, empresas de gestão de resíduos, seguradoras, empresas tecnológicas, de consultoria e muitas outras. Somos atualmente a aliança mais transversal na área da saúde.

Desde a sua fundação, temos organizado webinars e colóquios, participado em múltiplos congressos, lançamos o International Course on Health and the Environment, em parceria com a Escola Nacional de Saúde Pública (com uma segunda edição prevista para este ano), temos intervindo na discussão pública de documentos oficiais, publicado comunicados e estamos a trabalhar com as sociedades científicas e associações de doentes na elaboração e publicação de orientações de sustentabilidade ambiental em diferentes setores.

Criámos também o Observatório Português da Saúde e Ambiente, que divulgou o seu primeiro relatório em janeiro de 2025, com a colaboração de mais de 80 autores.

Organizámos o I Congresso Nacional de Saúde e Ambiente, a 7 e 8 de fevereiro de 2025, com mais de mil participantes de 50 profissões distintas. Nos dias 9 e 10 de abril de 2026, realizaremos o II Congresso, na Fundação Calouste Gulbenkian. Este ano, estamos ainda a desenvolver uma plataforma de boas práticas e a dinamizar a colaboração entre os associados, através da criação de quatro clusters temáticos.

O que poderemos fazer mais para melhorar o nível de literacia em saúde do cidadão, em particular na articulação com as questões do ambiente e da perspetiva da saúde única e numa visão planetária?

Como base estruturante, é necessário integrar a saúde com o ambiente. Cerca de metade da população coloca a saúde como a sua primeira preocupação enquanto as alterações climáticas aparecem no décimo lugar. Assim é fundamental que público e decisores tenham consciência de que as alterações ambientais já são responsáveis por uma em cada quatro mortes a nível global. É também importante conectar temas globais (emissões, desflorestação, perda de biodiversidade) com impactos locais, para aumentar a perceção de relevância imediata.

Depois apontam-se algumas estratégias possíveis para melhorar o nível de literacia dos cidadãos em relação à saúde e ambiente:

Em primeiro lugar, é necessário introduzir estes temas em todos os níveis do ensino, a começar pela escola primária. Não podemos esquecer também os profissionais de saúde. É chocante sabermos o impacto que as alterações ambientais já estão a ter na saúde e observar a inércia das escolas em introduzir estes temas no ensino pré e pós-graduado. É também urgente a integração destes temas nas reuniões e congressos científicos e incentivar o aparecimento de campeões, em cada uma das áreas, que sejam credíveis e inspiradores. A educação dos jornalistas em relação a conteúdos e formas de comunicar é também importante.

Em segundo lugar é importante desenvolver campanhas públicas inovadoras, por todos os meios mediáticos, incluindo, televisão e redes sociais, com formas e mensagens adequadas aos diferentes públicos-alvo. O acompanhamento por peritos de comunicação e da gestão dos comportamentos é essencial. Também é importante fazer estas campanhas a nível regional e local, para o que é indispensável envolver as autarquias, associações, outras instituições com implantação local e os próprios cidadãos. A disponibilização de informação dirigida ao público, baseada em evidência, com linguagem adequada nos sites das organizações e de Apps ou outras ferramentas informáticas, é outro meio de aumentar a literacia nestes temas.

A divulgação junto do público e o incentivo à sua participação em iniciativas de cidadania a nível local e regional, que sejam exemplos de boas práticas na inter-relação da saúde com o ambiente, serão outras das formas possíveis de aumentar a literacia .

Em quarto lugar é preciso aproveitar o capital de confiança que os profissionais de saúde têm junto das comunidades, para que estes se tornem líderes na comunicação sobre a inter-relação entre saúde ambiente. Por outro lado, cada médico tem. Ao longo da vida cerca de 200.000 episódios de contacto com doentes. É preciso aproveitar estes episódios para aumentar a awareness dos cidadãos e incentivar comportamentos que geralmente são bons para o ambiente, mas também para a saúde.

Em quinto lugar, também os documentos oficiais devem ter uma linguagem acessível para o cidadão comum e permitir a discussão pública.