TEMOS DE MUDAR O PARADIGMA DA LINGUAGEM NO CANCRO

No Dia Mundial do Cancro, assinalado a 4 de fevereiro, é essencial refletirmos não apenas sobre a prevenção, o diagnóstico e os avanços terapêuticos, mas também sobre a forma como comunicamos sobre o cancro. A linguagem tem poder. As palavras que utilizamos moldam crenças, influenciam emoções, orientam comportamentos e podem reforçar — ou desconstruir — o medo, o estigma e a desinformação.
Durante muito tempo, o cancro foi associado a metáforas de guerra e fatalismo: “batalha contra o cancro”, “perdeu a luta”, “sentença de morte”. Apesar de frequentemente bem-intencionadas, estas expressões transmitem a ideia de que o desfecho depende apenas da força individual, podendo gerar culpa, frustração e sofrimento acrescido. Hoje, sabemos que o cancro é uma condição complexa, com múltiplos fatores biológicos, sociais e ambientais, e que muitos tipos de cancro são preveníveis, tratáveis e controláveis.
Uma comunicação inclusiva, equitativa e construtiva começa por colocar a pessoa no centro. Dizer “pessoa com cancro” em vez de reduzir alguém ao seu diagnóstico reforça a sua identidade, dignidade e autonomia. Falar em “percurso de tratamento” em vez de “batalha” reconhece o acompanhamento clínico, o apoio familiar e o papel dos sistemas de saúde. Substituir expressões como “doença fatal” por “doença grave”, quando clinicamente adequado, ou “sentença de morte” por “diagnóstico de cancro”, promove rigor científico e reduz o alarmismo. Quando ocorre o falecimento, dizer “faleceu devido ao cancro” é mais humano e respeitador do que “perdeu a luta”.
A linguagem construtiva não esconde a gravidade da situação, mas promove esperança realista, compreensão e empowerment. Evitar metáforas violentas e culpabilizadoras contribui para reduzir o estigma e favorece uma vivência mais saudável do processo de doença, para as pessoas com cancro, famílias e cuidadores.
A Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS) tem assumido um papel central na transformação da comunicação em saúde, incluindo na área do cancro. Através da formação de equipas multidisciplinares, da promoção de debates públicos e científicos, e da sensibilização para práticas comunicacionais centradas na pessoa, a SPLS tem contribuído para mudar o paradigma da linguagem, promovendo clareza, respeito, equidade e humanização dos cuidados.
Cinco ações essenciais para mudar a linguagem sobre o cancro — em sintonia entre todos os atores
Para que esta mudança seja efetiva e sustentável, é fundamental que sociedades científicas, ordens profissionais, associações de doentes e media atuem de forma articulada:
1. Definir orientações comuns de linguagem em saúde
Criar guias claros, baseados em evidência científica, sobre termos adequados, inclusivos e respeitadores na comunicação sobre o cancro.
2. Formar profissionais de saúde e comunicadores
Integrar a comunicação centrada na pessoa e a literacia em saúde na formação contínua de médicos, enfermeiros, jornalistas e outros profissionais.
3. Envolver as pessoas com cancro e associações de doentes
Co-construir mensagens e recomendações linguísticas com quem vive a experiência da doença, garantindo sensibilidade e relevância real.
4. Promover responsabilidade nos media
Incentivar uma cobertura rigorosa, não sensacionalista, que evite metáforas violentas e transmita informação clara, equilibrada e humanizada.
5. Monitorizar e atualizar práticas comunicacionais
Avaliar regularmente o impacto da linguagem utilizada e ajustar orientações de acordo com novos conhecimentos científicos e sociais.
Neste Dia Nacional do Cancro, o apelo é claro: mudar o paradigma da linguagem é uma responsabilidade coletiva e uma poderosa ferramenta de promoção da literacia em saúde, da dignidade humana e da esperança informada.
Cada palavra pode ferir — ou cuidar.
Que escolhamos sempre uma linguagem que respeita, inclui e constrói.
Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde
