A visão da Dra. Teresa Bastos da Mota para a Literacia em Saúde

A literacia em saúde é, na minha perspetiva, um pilar essencial para a construção de sociedades mais justas, resilientes e saudáveis. Ao longo do meu percurso como médica de família e coordenadora de projetos de saúde, tive a oportunidade de vivenciar de forma muito concreta os impactos da literacia — ou da sua ausência — nos contextos mais diversos: desde comunidades indígenas da Guatemala, passando por zonas desfavorecidas de Cabo Verde, até à realidade urbana de populações migrantes no Barreiro, em Portugal.
Para mim, a literacia em saúde não se resume à capacidade de ler um folheto informativo ou compreender uma receita médica. Trata-se de dotar os indivíduos e comunidades de ferramentas críticas para tomarem decisões informadas sobre a sua saúde, fomentando o empoderamento e promovendo a equidade. Esta visão alicerça-se em três dimensões fundamentais: a educação contínua, o respeito pela diversidade sociocultural e a sustentabilidade das intervenções.
A minha experiência com organizações como a AMI para a Guiné-Bissau, Health & Help na Guatemala e Centro de Saúde de Mosteiros em Cabo-Verde (Fogo) reforçou esta convicção. Em contextos de cooperação para o desenvolvimento, a literacia em saúde revela-se não apenas como um direito humano, mas também como um mecanismo indispensável para garantir a eficácia e durabilidade dos projetos implementados. A aposta na formação de quadros locais, a valorização do conhecimento comunitário e a comunicação clara e acessível tornam-se estratégias imprescindíveis.
Do ponto de vista clínico, a literacia em saúde traduz-se, diariamente, na relação médico-doente. É na consulta de rotina, no acompanhamento da diabetes ou na educação para a contraceção, que se constroem pontes de confiança e se combate o paternalismo ainda presente no sistema de saúde. O meu envolvimento com projetos de educação para a saúde, como o exemplo da “Ribeirinha Digital”, é reflexo desse compromisso com uma prática médica humanizada, informada e participativa.
Como membro da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde e formadora acreditada, pretendo continuar a investir neste caminho. Acredito que só com cidadãos informados podemos construir sistemas de saúde verdadeiramente democráticos, onde o conhecimento é partilhado e a dignidade de cada utente é respeitada.
