Visão para a Literacia em Saúde segundo a Dra. Íris Almeida

A literacia em saúde constitui um pilar fundamental para a promoção da saúde, a prevenção da doença, a redução das desigualdades e o exercício pleno da cidadania. Mais do que o acesso à informação, implica a capacidade de compreender, interpretar criticamente e utilizar esse conhecimento na tomada de decisões informadas ao longo do ciclo de vida. A minha visão para a literacia em saúde assenta numa abordagem integrada, inclusiva e centrada na pessoa, reconhecendo a complexidade dos contextos sociais, culturais e institucionais onde a saúde é vivida e construída.
Enquanto psicóloga e docente com um percurso fortemente ligado à investigação, à formação e à intervenção em contextos forenses, judiciais e comunitários, tenho observado como os baixos níveis de literacia em saúde se associam frequentemente a situações de maior vulnerabilidade psicossocial, nomeadamente em contextos de violência interpessoal, vitimação, exclusão social e contacto com o sistema de justiça. Nestes cenários, a literacia em saúde assume um papel crítico, não apenas na compreensão de informação clínica, mas também no reconhecimento de direitos, no acesso a recursos de apoio, na adesão a intervenções e na promoção da autonomia e do empowerment individual.
Defendo uma literacia em saúde que vá além do modelo tradicional biomédico, integrando as dimensões psicológica, social e relacional da saúde. Esta abordagem exige estratégias adaptadas às necessidades específicas de diferentes populações, crianças, jovens, adultos, pessoas idosas, vítimas de crime, grupos socialmente vulneráveis, respeitando os seus contextos de vida, níveis de escolaridade, experiências prévias e barreiras estruturais. A comunicação em saúde deve ser clara, ética, culturalmente sensível e baseada na evidência científica, promovendo uma relação de confiança entre profissionais, instituições e cidadãos.
No contexto académico e científico, a literacia em saúde deve ser encarada como uma competência transversal, integrada na formação inicial e contínua dos profissionais de saúde, educação, justiça e intervenção social. A capacitação destes profissionais é essencial para que possam, por sua vez, atuar como agentes promotores de literacia, contribuindo para práticas mais humanizadas, informadas e eficazes. Paralelamente, a investigação científica tem um papel central na identificação de necessidades, avaliação de intervenções e desenvolvimento de modelos inovadores que aproximem o conhecimento científico da comunidade.
Acredito ainda que a literacia em saúde deve ser promovida através de uma forte articulação interinstitucional, envolvendo academia, serviços de saúde, sistema de justiça, organizações da sociedade civil e decisores políticos. Só através desta cooperação será possível construir respostas sustentáveis, baseadas na evidência e orientadas para a redução das desigualdades em saúde.
Enquanto sócia da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, assumo o compromisso de contribuir ativamente para a reflexão, produção de conhecimento e desenvolvimento de iniciativas que reforcem a literacia em saúde em Portugal, com particular atenção aos contextos de vulnerabilidade, à interface entre saúde mental, violência e justiça, e à valorização do papel da psicologia na promoção da saúde e do bem-estar das pessoas e das comunidades.
