Literacia em Saúde: Entre a Soberania e o Medo

Data Evento

23 de Fevereiro, 2026    
Todo o dia

Literacia em Saúde: Entre a Soberania e o Medo

Prof. José Mendes Nunes

Neste curto texto, dispenso-me de teorizar sobre a definição de Literacia em Saúde (LS). O seu grande desafio reside em como restituir à população a soberania sobre as decisões da sua própria saúde. Nesta sociedade de consumo, a saúde, a doença e até a morte tornaram-se determinantes comportamentais poderosos.

A saúde e a venda de armas são hoje os maiores negócios legais do século, partilhando o mesmo motor: o medo. A indústria das armas vive do medo do “outro”; a indústria da saúde vive do medo do próprio corpo — da célula que muta, do vaso que entope, do vírus que nos rodeia.

A LS tem, por isso, de lidar com uma dualidade: por um lado, fornecer ferramentas que ajudem a promover a saúde e prevenir a doença; por outro, incentivar comportamentos racionais que resistam à mercantilização do medo e ao consumo irracional de cuidados.

A LS não é um fim em si mesmo, mas um meio para ajudar a fazer escolhas inteligentes. De pouco serve o conhecimento se não houver poder para agir racionalmente. E para exercer esse poder, é fundamental que existam produtos e serviços adequados e acessíveis. Daqui se infere que um dos maiores desafios da LS é combater a “Medicina a Mais” (Too Much Medicine). A procura desenfreada por cuidados torna os sistemas de saúde insustentáveis, levando ao tratamento obstinado do que é incurável e, por escassez de recursos, à falta de tratamento do que é curável.

A “indústria da doença” exige lucro, e este raramente vem da cura definitiva, mas da gestão da cronicidade e da exploração da angústia. Ao exaltar a tecnologia, vende-se uma juventude ad vitam e uma ilusão de imortalidade. Esta crença cega na tecnologia — a tecnodiceia — fundamenta a medicação inútil ou iatrogénica, a monitorização obsessiva e exames desnecessários. O risco é real: sobrediagnóstico, sobretratamento  e desperdício de recursos.

O resultado? Serviços afogados por quem menos precisa, competindo com quem mais necessita. Isto gera um desvio de recursos para o topo da pirâmide (hospitais) em desfavor da base (cuidados de proximidade). Investir apenas na alta tecnologia hospitalar é como tentar controlar o leito de um rio construindo uma barragem na foz. Tal como a acumulação extrema de riqueza gera pobreza noutro lado, o excesso de intervenção num ponto do sistema retira a dignidade e o cuidado noutro.

Em suma, o maior desafio na promoção da LS é equilibrar os benefícios e os malefícios da indústria da saúde. É libertar as pessoas para uma vida soberana, onde não se tenha medo da morte (porque faz parte da vida) nem medo de viver, sem culpabilizar quem adoece nem os profissionais que os acompanham quando o fim se torna inexorável.

 

Prof. José Mendes Nunes

Sócio da Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde

Assistente Graduado Sénior de MGF (reformado)

Ex-professor da NOVA Medical School, Universidade Nova de Lisboa.

Docente do Curso de Pós-Graduação de Literacia em Saúde do ISPA

Declaração: Este texto foi refinado com o auxílio de ferramentas de IA para garantir a clareza e fluidez da mensagem