Literacia em Saúde: a ponte indissociável para o futuro dos Cuidados de Saúde Primários

Num contexto de crescente complexidade das doenças emergentes, crónicas e infeciosas, a Literacia em Saúde (LS) é considerada um determinante cada vez mais essencial da saúde individual e coletiva. A capacidade das pessoas para aceder, compreender, avaliar e utilizar informação em saúde influencia diretamente os ganhos em saúde, bem como a sustentabilidade dos sistemas de saúde.
Enquanto Médica de Medicina Geral e Familiar (MGF) em São Martinho da Gandra (concelho de Ponte de Lima, USF Vale do Lima- ULSAM) onde o meu quotidiano é marcado por uma realidade rural com desafios específicos — nomeadamente a dispersão populacional, o envelhecimento, a imigração e a diversidade cultural — constato que a LS constitui uma ferramenta central para capacitar os utentes, promover a autonomia na tomada de decisão em saúde e fomentar a inclusão da população.
A Medicina Geral e Familiar, enquanto Especialidade Médica holística e centrada na pessoa, constitui “um espaço” privilegiado para a implementação da LS na prática clínica diária. Desde a consulta individual até às intervenções comunitárias, é possível identificar determinantes sociais, económicos, culturais e ambientais da saúde, apoiando decisões informadas e partilhadas. Os Cuidados de Saúde Primários (CSP), enquanto porta de entrada do sistema de saúde, permitem o estabelecimento de relações de confiança duradouras e asseguram cuidados contínuos às famílias ao longo do ciclo da vida. (Wonca 2022)
É neste contexto que a LS se traduz em resultados concretos: maior adesão terapêutica, prevenção de complicações, melhor gestão das doenças crónicas e empoderamento do utente para a prevenção do aparecimento da doença. Os dados disponíveis sobre a LS e a sua implementação nos CSP evidenciam o seu impacto significativo. Investir em formação e investigação é, por isso, fundamental para documentar a sua abrangência e revelar o seu potencial transformador, não apenas na melhoria da saúde individual, mas também nos avanços em saúde pública. (Sprogell A,et al, 2021; Lopes et al, 2024)
O contexto rural apresenta desafios particulares, como as dificuldades de deslocação, o impacto da emigração, a diversidade cultural e as limitações de recursos em saúde. Simultaneamente, oferece oportunidades únicas de intervenção comunitária, proximidade com as famílias e desenvolvimento de programas de LS ajustados às necessidades locais. A Medicina Geral e Familiar, neste contexto, possui competências nucleares que a ligam de forma indissociável à LS, nomeadamente através da coordenação dos cuidados centrados na pessoa e no seu meio envolvente, integrando prevenção, promoção da saúde e gestão da doença e das suas complicações. Na mesma linha, os Profissionais de Saúde capacitados em LS conseguem comunicar de forma Assertiva, Clara e Positiva (“Modelo ACP” Belim & Vaz de Almeida, 2018) e, consequentemente, desenvolver estratégias comunitárias inclusivas e integradas, reforçando a equidade e a autonomia das pessoas.
Para terminar, a Literacia em Saúde não é apenas uma competência técnica, mas um instrumento transformador que coloca cada pessoa no centro do cuidado. Investir em Literacia em Saúde nos Cuidados de Saúde Primários, em Portugal e no mundo, é construir uma ponte que liga o conhecimento à ação, permitindo reduzir desigualdades, melhorar os ganhos em saúde, promover a inclusão e garantir a participação ativa de todos aqueles que, para além de utentes, são cidadãos, mesmo nos contextos mais desafiadores.
Dra. Coralie Alves, Médica de Medicina Geral e Familiar.
