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SUMMARY:Entrevista do Observador ao cardiologista Filipe Macedo. "Porque se
  morre tanto de doenças do cérebro e aparelho circulatório?"
DESCRIPTION:Entrevista do Observador ao cardiologista Filipe Macedo. "Porqu
 e se morre tanto de doenças do cérebro e aparelho circulatório?"\nEsta 
 entrevista foi publicada pelo Observador e republicada no site da Sociedad
 e Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS) com a respetiva autorização. 
 A peça original está disponível aqui. Entrevista de Carla Mateus e Clá
 udia Pinto. Fotografia de Tomás Silva.\n\n\n\nAs doenças cérebro-cardio
 vasculares (DCCV) continuam a ser a principal causa de morte em Portugal. 
 Segundo dados recentes do Instituto Nacional de Estatística\, os casos de
  AVC estiveram na origem do maior número de mortes no país em 2022 (9 
 616\, representando 7\,7% do total nacional). E os enfartes foram respons
 áveis por 3908 mortes\, o que representou 3\,1% da mortalidade total e um
 a diminuição de 0\,7% em relação ao ano anterior. No entanto\, de acor
 do com o cardiologista Filipe Macedo\, coordenador do Programa Nacional p
 ara as Doenças Cérebro-Cardiovasculares (PNDCCV)\, da Direção Geral d
 a Saúde\, tem-se assistido\, nos últimos anos\, a uma redução da morta
 lidade nestas doenças\, em particular no enfarte agudo do miocárdio. Ape
 sar dos avanços registados — nomeadamente com a criação da Via Verde
  AVC\, em 2006\, e da Via Verde Coronária\, em 2007\, e com a abertura d
 e salas de hemodinâmica [onde se faz o diagnóstico e tratamento de doen
 ças cérebro-cardiovasculares\, através de procedimentos como o cateteri
 smo\, em caso de enfarte] nos hospitais da Covilhã\, Aveiro e Guimarães\
 , há ainda muito por onde melhorar.\n\nEm entrevista ao Observador\, Fili
 pe Macedo sublinha a importância de combater a falta de sensibilização\
 , da educação da população para estes temas\, de ampliar a divulgaçã
 o sobre a prevenção cardiovascular e a morte súbita e de tratar atempad
 amente a insuficiência cardíaca\, além de apontar algumas questões que
  não dependem das autoridades de saúde\, mas dos sucessivos governos. E 
 lamenta o facto de o Plano de Emergência para a Saúde não dar priorida
 de às DCCV…\n\n[caption id="attachment_7347" align="aligncenter" width=
 "1024"] TOMÁS SILVA/OBSERVADOR[/caption]\n\n\nAs doenças cérebro-cardio
 vasculares (DCCV) são a principal causa de morte e incapacidade prematura
  antes dos 65 anos em Portugal. Quais os números mais atualizados?\nSim\,
  as DCCV continuam a ser primeira causa de morte em Portugal. No entanto\,
  nos últimos anos tem havido uma descida consistente da mortalidade por e
 stas doenças. Neste momento\, morre-se um pouco menos de enfarte agudo do
  miocárdio\, o que é uma boa notícia. A mortalidade também tem vindo 
 a diminuir no AVC\, mas este ainda tem um peso importante por causa da hip
 ertensão arterial. Em Portugal há muitos doentes hipertensos\, grande pa
 rte devido a excessos alimentares\, nomeadamente a uma alimentação rica 
 em sal\, ao sedentarismo e à obesidade. É preciso fazer uma prevenção 
 mais agressiva no que respeita aos fatores de risco para que haja menos do
 ença cérebro-cardiovascular.\n\nO AVC mata mais do que o enfarte?\nMata.
  Falando de percentagens\, as doenças neoplásicas [cancro] e as DCCV sã
 o responsáveis por quase 50% da mortalidade em Portugal\, sendo as DCCV a
 s “campeãs” nesta matéria\, no que respeita a dados de 2022. Destas\
 , 7\,7% das mortes são por doenças cerebrovasculares (AVC) e 5\,5% dizem
  respeito a doenças isquémicas do coração\, destacando-se o enfarte ag
 udo do miocárdio com uma percentagem de 3\,1%. Dados do INE\, relativos a
 o ano de 2022\, indicam que as pessoas mais idosas\, acima dos 65-70 anos\
 , são as mais afetadas pelo AVC\, enquanto a doença coronária atinge id
 ades mais jovens. Ainda assim\, os números estão a baixar. Antes da impl
 ementação da Via Verde AVC e da Via Verde Coronária\, a mortalidade 
 era muito elevada\, mas de então para cá [2006-2007] a situação tem vi
 ndo a melhorar progressivamente. No entanto\, as pessoas têm de ter noç
 ão que\, perante sintomas de AVC ou de enfarte\, não devem ir para a urg
 ência pelos próprios meios. A nossa mensagem como médicos consiste em d
 izer à população que\, perante um mal-estar\, como dor no peito\, trans
 piração súbita\, sensação de peso no peito ou nos braços e náuseas 
 deve chamar o 112. Nunca deve ir para o hospital pelos seus próprios meio
 s.\n\nAinda há muitas pessoas a deslocarem-se por meios próprios quando 
 têm sintomas de AVC ou de enfarte\, que nem sempre os identificam como ta
 l e\, por isso\, não contactam o 112…\nExatamente. E ao fazerem isso es
 tão a perder uma ajuda valiosa. Quando se fala das Vias Verdes [AVC e Cor
 onária] e de situações agudas\, quer de AVC\, quer de enfarte\, a pesso
 a transportada pelo INEM não precisa de fazer triagem quando chega ao hos
 pital e começa logo a ser tratada.\n\nE esse passo é essencial porque h
 á um tempo recomendado para se iniciar o tratamento?\nOs primeiros 90 min
 utos – desde o início dos sintomas até o doente ser avaliado\, diagnos
 ticado e tratado no laboratório de hemodinâmica – são fundamentais. Q
 uanto mais rápido se der início ao tratamento\, menos sequelas para o m
 úsculo cardíaco. Ou seja\, maior será a probabilidade de evitar o apare
 cimento de insuficiência cardíaca mais tarde.\n\nAinda em relação aos 
 números das DCCV\, os dados do INE já refletem o impacto da pandemia?\nS
 im. Em 2020\, os óbitos por doença cerebrovascular aumentaram para 11 4
 22. Em 2021 baixaram para 9 594 e\, em 2022\, aumentaram 0\,2%\, registand
 o-se 9 616 mortes. Devido ao medo da Covid-19\, os doentes com situações
  agudas chegavam ao hospital muito mais tarde e com problemas que não se 
 viam há muitos anos. Tivemos muitas pessoas com enfartes agudos do miocá
 rdio que deviam ser tratadas nos primeiros 90 minutos após o início dos 
 sintomas\, mas que só iam ao hospital dois ou três dias depois\, chegand
 o já com complicações graves ou mesmo ruturas cardíacas.\n\nFala-se mu
 ito de AVC e enfartes. Mas existem outras DCCV\, como a angina de peito\, 
 a fibrilhação auricular ou a insuficiência cardíaca. Para o AVC e enfa
 rte há formas de responder rapidamente porque são episódios agudos. Mas
  outras doenças são silenciosas. Entre a população portuguesa com mais
  de 50 anos\, uma em cada seis pessoas tem insuficiência cardíaca\, mas 
 90% nem sequer sabe que tem essa doença. O que é urgente fazer para trav
 ar estes números?\nFicámos alarmados com o elevado número de doentes qu
 e encontrámos com insuficiência cardíaca. Segundo o estudo PORTHOS  
 [uma iniciativa da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e da Astrazeneca]\,
  mais de 700 mil portugueses vivem com esta doença\, o que é\, de facto\
 , um número demasiado alto. Outro aspeto a assinalar é que há uma perce
 ntagem elevada de doentes que não têm noção que têm insuficiência ca
 rdíaca. Estes resultados devem-se\, em parte\, ao tratamento inadequado d
 as doenças cardiovasculares. Se os doentes não tratarem adequadamente as
  doenças das artérias coronárias\, como a angina de peito e o enfarte a
 gudo do miocárdio\, o músculo cardíaco vai adoecer\, levando ao apareci
 mento da insuficiência cardíaca.\n\nDaí a importância da prevenção.\
 nExatamente. Daí a importância da prevenção\, não só dos fatores de 
 risco que podem conduzir a esta doença – obesidade\, tabaco\, diabetes\
 , entre outros –\, mas também de um diagnóstico precoce de quem já te
 m a doença e não sabe. Por essa razão\, é fundamental que os doentes c
 onsultem regularmente o seu médico de família\, que está apto a tratar 
 desta doença.\n\nApesar de não ser o objetivo principal\, o estudo acabo
 u por revelar desigualdades regionais no que diz respeito ao número de ca
 sos.\nExato. O trabalho da Sociedade Portuguesa de Cardiologia mostrou uma
  grande disparidade regional\, com o Alentejo a apresentar o dobro dos doe
 ntes com insuficiência cardíaca. Este resultado relaciona-se com o facto
  de a cobertura de médicos de medicina geral e familiar ser um pouco pior
  no Alentejo do que\, por exemplo\, na região Norte. Desta forma\, como a
 s pessoas vão menos ao médico\, os casos que poderiam ter sido detetados
  passam despercebidos e os doentes\, por falta de conhecimento\, acabam po
 r desenvolver insuficiência cardíaca não tratada. É preciso tratar mai
 s precocemente estes doentes para não evoluírem para uma situação cata
 strófica\, porque já se morre mais de insuficiência cardíaca do que de
 vido a algumas neoplasias (cancros). Para isso\, as pessoas devem estar at
 entas aos sintomas\, vigiar regularmente os fatores de risco cardiovascula
 r e fazerem uma consulta regular com o médico assistente. Se isto acontec
 er\, podemos tratar estes doentes mais cedo e evitar a sua morte.\n\nFalan
 do de insuficiência cardíaca: para quando a comparticipação pelo Servi
 ço Nacional de Saúde (SNS) das análises específicas para a deteção p
 recoce da doença\, com as BNP e NTproBNP [análises que mostram a quantid
 ade de hormonas libertadas na corrente sanguínea em resposta ao aumento d
 o esforço ou dilatação do coração]?\nO PNDCCV\, em conjunto com a Dir
 eção Executiva do SNS\, publicou em dezembro de 2023 um trabalho sobre 
 as redes de referenciação hospitalar de cardiologia\, cardiologia pediá
 trica e cirurgia cardíaca\, no qual recomenda a prescrição desta análi
 se pela medicina geral e familiar\, uma vez que são os médicos de famíl
 ia que estão em contacto com estes doentes. Esta é uma simples análise 
 ao sangue que permite ver se a pessoa tem os níveis de BNP ou NT-proBNP 
 normais. Isso faz toda a diferença porque o utente pode ser precocemente 
 tratado perante uma suspeita de insuficiência cardíaca\, quando ainda se
  encontra numa fase sem sintomas.\n\nE já há uma data prevista para a ap
 rovação dessa recomendação?\nA informação mais recente que recebi da
  Direção Executiva a esse respeito é que o assunto já estava no Minist
 ério da Saúde para ser promulgado\, ou seja\, para que esta medida possa
  ser posta em prática e os médicos de família possam prescrever a anál
 ise. Mas como\, entretanto\, houve a mudança do governo\, estamos a aguar
 dar o desenrolar da situação.\n\nPorque é que a medicina geral e famili
 ar não tem acesso a exames médicos que facilitariam a prevenção\, o di
 agnóstico precoce e o tratamento atempado de algumas doenças? Como o Map
 a para a hipertensão\, o doppler para a doença valvular ou a TAC e resso
 nância magnética para o diagnóstico da angina de peito.\nEstamos numa f
 ase de transição em relação a este assunto. Tal como as análises espe
 cíficas para a deteção precoce da insuficiência cardíaca\, também es
 ses meios complementares de diagnóstico foram recomendados no documento d
 a Rede de Referenciação Hospitalar de Cardiologia que elaborámos. Cabe 
 agora ao Ministério da Saúde aprovar esta proposta de atualização para
  que os médicos de família possam pedir esses exames nos cuidados de sa
 úde primários.\n\nO SNS parece estar muito focado na resposta imediata a
  eventos agudos como o AVC e o enfarte. Mas após esta fase\, e apesar de 
 aumentar o risco de voltar a ter um evento\, a prevenção secundária e 
 a reabilitação têm lacunas. Existem relatos que alertam para as grandes
  dificuldades destes doentes após a alta hospitalar. Já é possível hav
 er um contacto direto entre o hospital e os médicos de família e a parti
 lha de casos clínicos diretamente?\nA situação está cada vez mais agil
 izada\, havendo uma tendência crescente para que no SNS os médicos de fa
 mília tenham acesso à informação que consta no SClínico | Cuidados d
 e Saúde Primários [sistema que permite aos profissionais de saúde a co
 nsulta dos registos clínicos]. Há casos que podem ainda não funcionar t
 ão bem quanto é desejável\, mas ao nível do SNS essa situação está 
 a melhorar. Para mim\, o grande problema prende-se com a medicina privada.
  Há uma grande percentagem de doentes que recorrem ao privado\, mas não 
 existe qualquer ligação entre o que acontece nestes dois setores. A tute
 la deveria arranjar uma forma de aproximar quer o sistema social\, quer o 
 sistema privado\, quer o sistema público para evitar a realização de ex
 ames repetidos e\, assim\, poupar dinheiro.\n\nO que poderá o SNS fazer e
 m relação à prevenção secundária para prevenir a repetição de even
 tos agudos?\nDe uma forma geral\, os serviços de cardiologia a nível nac
 ional estão bem organizados e os doentes saem dos hospitais com uma estra
 tégia bem delineada. Mas é importante melhorar a acessibilidade às unid
 ades de reabilitação cardíaca [que incluem um médico fisiatra e/ou car
 diologista para fazer o seguimento dos doentes após um evento cardíaco c
 ontribuindo para o seu regresso à vida normal através da adoção de es
 tilos de vida saudáveis]. Portugal ainda tem poucos e esta é uma área i
 mportante na qual tem de se investir porque ajuda os doentes a integrarem-
 se mais facilmente na rotina habitual. Com o acesso a estas unidades as pe
 ssoas passam a ter menos medo de fazer exercício\, a ter apoio nas consul
 tas de desabituação tabágica e nas consultas de nutrição e\, se for n
 ecessário\, também têm acesso a consultas de psicologia. Isto tem de se
 r incentivado em Portugal até porque surge na sequência do que é recome
 ndado nos casos de quem tem uma doença coronária aguda e sai do hospital
  com uma estratégia bem delimitada. Por norma\, os doentes são seguidos 
 no primeiro ano pós síndrome coronária aguda\, sendo depois referenciad
 os para os colegas de medicina geral e familiar.\n\nÉ conhecida a diferen
 ça de acesso a cuidados para as DCCV entre o litoral e o interior. Alguns
  hospitais de distrito\, como os da Guarda\, Portalegre\, Castelo Branco e
  Beja não têm Serviço de Cardiologia\, tal como alerta a Sociedade Port
 uguesa de Cardiologia. Esta falha não estará também na base do que corr
 e menos bem no tratamento destas doenças?\nDe facto\, existem desigualdad
 es a este nível\, mas tenho uma notícia para partilhar. No espaço de um
  ano e meio conseguimos abrir uma sala de hemodinâmica no Serviço de Car
 diologia do Hospital da Covilhã\, situação que já se arrastava há 12 
 anos\, onde já se fizeram cerca de 500 cateterismos desde fevereiro deste
  ano. Foi ainda possível abrir mais duas salas de hemodinâmica\, uma em
  Aveiro e outra em Guimarães. As pessoas que sofrem enfartes do miocárdi
 o\, por exemplo\, já conseguem ser tratadas atempadamente\, evitando pior
 es prognósticos.\n\nJá não precisam de se deslocar até ao Porto ou Coi
 mbra?\nNão. Com esta mudança\, os doentes da Guarda e de Castelo Branco 
 são encaminhados para o hospital da Covilhã\, onde têm uma sala de hemo
 dinâmica. A população da Covilhã\, Aveiro e Guimarães estava muito de
 sprotegidas em relação a estes cuidados\, mas passou a estar em pé de i
 gualdade com a de outras zonas do país. Posso mesmo afirmar que\, neste m
 omento\, todos os portugueses estão a menos de 90 minutos de uma sala de 
 hemodinâmica se chamarem o INEM. Isto é uma mudança de paradigma\, pois
  significa que as pessoas são bem tratadas na situação aguda do enfarte
  agudo do miocárdio.\n\nE no sul do país\, o tratamento das DCCV é mais
  adequado no Algarve em comparação com o interior?\nEmbora não exista u
 m centro de cirurgia cardíaca na região\, o Hospital de Faro funciona be
 m no que diz respeito à área da cardiologia\, tendo também uma sala de 
 hemodinâmica. O mesmo acontece em Évora.\n\nQuanto às listas de espera 
 para cirurgia cardíaca e para a intervenção TAVI (Implante Percutâneo 
 de Válvula Aórtica)\, a solução pode passar pela criação de mais doi
 s centros de cirurgia cardíaca fora de Lisboa e Porto\, como proposto por
  um grupo de trabalho do SNS?\nEnquanto coordenador do PNDCCV\, fui um dos
  peritos que integrou esse grupo de trabalho. Chegámos à conclusão de q
 ue é importante abrir mais dois centros de cirurgia cardíaca em Portugal
  para responder ao aumento da procura e diminuir o tempo de espera das cir
 urgias. Um seria no Norte\, eventualmente em Braga\, e o outro no sul do p
 aís\, eventualmente em Faro. A localização terá de ter em conta crité
 rios de densidade populacional e de distanciamento geográfico\, dependend
 o também da existência de médicos\, pois formar um cirurgião cardíaco
  sénior demora muitos anos.\n\nOutra questão importante\, que está rela
 cionada com os centros de cirurgia cardíaca\, tem que ver com o envelheci
 mento da população e com a estenose aórtica no idoso. É uma doença mu
 ito comum acima dos 70 anos\, não havendo praticamente limite para tratá
 -la\, a não ser o estado biológico da pessoa. Por exemplo\, se uma pesso
 a tiver 90 anos e um excelente estado biológico\, nada impede que seja ca
 ndidata para a colocação de uma válvula aórtica percutânea (TAVI) –
  intervenção que consiste na substituição da válvula aórtica por via
  da artéria femoral\, na virilha\, sem recurso à abertura do esterno. Os
  seis centros de cardiopatia estrutural existentes em Portugal são centro
 s de excelência e fazem esse procedimento muito bem. Mas estas válvulas 
 percutâneas são muito caras. A boa notícia é que\, juntamente com a Di
 reção Executiva do SNS e a Administração Central do Sistema de Saúde 
 (ACSS)\, conseguiu-se um financiamento próprio de mais de 22 milhões de 
 euros para a colocação das TAVI nos seis centros de referência. Esta me
 dida está aprovada desde o início do ano.\n\nRelativamente à reabilita
 ção cardíaca\, Portugal é um dos países europeus com menor oferta. Po
 rquê?\nAcho que Portugal nunca investiu muito nesta área. Existem 25 cen
 tros de reabilitação cardíaca no nosso país\, 16 públicos e nove priv
 ados. Mas apesar de este não ser um número muito baixo e de ter vindo a 
 crescer paulatinamente\, nunca nos empenhámos o suficiente para investir 
 nesta área.\n\nPorquê?\nEmbora Portugal esteja a melhorar em muitos aspe
 tos\, acho que as pessoas nunca se apaixonaram o suficiente pela reabilita
 ção cardíaca. E cada vez mais se chega à conclusão de que a reabilita
 ção cardíaca é tão importante como tomar alguns medicamentos. É fund
 amental\, senão mesmo obrigatório\, que as administrações hospitalares
  e as direções dos serviços de cardiologia estejam empenhadas nesta que
 stão. É preciso que os hospitais tenham um local como um ginásio onde a
 s pessoas possam fazer a reabilitação\, invistam em equipamento e em rec
 ursos humanos. Enquanto a tutela ou a Ordem dos Médicos não derem instru
 ções para que os serviços de cardiologia tenham obrigatoriamente reabil
 itação cardíaca\, acho que não vamos melhorar nesta área com a rapide
 z que desejaríamos.\n\nNo que respeita à cobertura nacional dos cuidados
  intensivos coronários\, acha que esta é uma falha que compromete a adeq
 uada gestão dos doentes?\nA abertura das novas salas de hemodinâmica e o
  facto de todos os doentes estarem a 90 minutos de distância destas valê
 ncias tem-nos deixado numa situação confortável no que diz respeito ao 
 número de camas disponíveis nos cuidados intensivos para enfarte agudo d
 o miocárdio. Mas se pensarmos também na doença cardíaca grave\, como a
  endocardite bacteriana ou a insuficiência cardíaca\, provavelmente tere
 mos de reforçar as unidades com mais camas. Mas\, mais do que poucas cama
 s nos cuidados intensivos coronários\, temos um número insuficiente de c
 amas na fase seguinte\, de cuidados intermédios. Atualmente\, os doentes 
 tendem a ficar menos tempo nos cuidados intensivos passando para uma etapa
  em que não necessitam de cuidados tão diferenciados. E é nessa altura 
 que precisamos de mais camas\, pois as que temos são insuficientes.\n\nCo
 mo se pode pode melhorar essa situação?\nTem de haver diretrizes da tute
 la. É importante que sejam dadas instruções às direções hospitalares
  para arranjarem forma de melhorar o parque de camas de modo a receber e t
 ratar esses doentes o mais rapidamente possível. Quanto menos tempo ficar
 em no hospital\, melhor é para todos. No caso do AVC\, a situação é ma
 is crítica porque não há camas suficientes\, nem nos cuidados intensivo
 s nem nas unidades de AVC.\n\nAté porque as metas do Plano de Ação par
 a o AVC na Europa são mais altas do que aquilo que acontece em Portugal.
 \nSão\, mas nós estamos a cumprir em parte os objetivos desse plano\, so
 bretudo em relação ao tratamento do AVC isquémico. Ou seja\, estamos a
  fazer bem trombectomias e cateterismos [ambas as intervenções permite
 m remover um coágulo de uma artéria ou de um vaso sanguíneo]\, mas esta
 mos pior no que toca ao número de camas disponíveis para estes casos. É
  uma situação crítica\, até pelo peso que a doença tem a nível nacio
 nal. É essencial aumentar o número de camas dedicadas ao tratamento dest
 es doentes.\n\nEm alguns trabalhos que publicámos já fomos alertados par
 a a diferença de comparticipação para as doenças crónicas que não s
 ão reconhecidas como tal. Não deveriam as DCCV ter medicação compartic
 ipada a 100%? A medicação para a insuficiência cardíaca\, por exemplo\
 , não é comparticipada a 100%.\nHá medicamentos para as DCCV que são m
 uito caros\, não existem na versão genérica e\, como tal\, merecem comp
 articipação. Era importante que a tutela desse instruções nesse sentid
 o. No caso específico da insuficiência cardíaca – e tendo em conta qu
 e é uma doença grave\, com uma altíssima mobilidade e mortalidade –\,
  existem dois ou três medicamentos muito importantes que não são compar
 ticipados\, mas que deveriam ser. Já tomámos diligências junto do Infar
 med a quem compete autorizar a comparticipação.\n\nComo é que a DGS est
 á empenhada em contribuir para a mudança de hábitos de vida da populaç
 ão?\nAs pessoas têm de ter noção que há hábitos fundamentais para a 
 saúde desde muito cedo. Ou seja\, precisam de fazer exercício físico\, 
 ter uma alimentação equilibrada\, ter a tensão arterial e a diabetes co
 ntroladas e não devem fumar. Parece muito\, mas se começarmos a explicar
  isto aos jovens nas escolas e incentivarmos uma alimentação saudável n
 as cantinas e em casa\, bem como a prática de desportos de grupo e menos 
 “desportos de computador”\, estamos a contribuir para que haja menos d
 oença cérebro-cardiovascular e mais adultos saudáveis e felizes.\nA DGS
  tem programas que funcionam muito bem e têm contribuído para uma melhor
  e mais adequada prevenção dos estilos de vida. E o PNDCCV tem procurado
  contribuir para a melhoria da literacia dos portugueses no que diz respei
 to às DCCV. As pessoas\, quando têm uma doença vascular\, tanto podem t
 er um AVC\, como uma doença nas carótidas\, um enfarte agudo do miocárd
 io ou uma dor “na barriga” da perna\, a que se chama claudicação int
 ermitente. No entanto\, as causas principais são sempre as mesmas: tabagi
 smo\, colesterol elevado\, sedentarismo\, excessos alimentares e obesidade
 . Através da literacia da população\, nomeadamente nas escolas\, estamo
 s a contribuir para o controlo destes fatores de risco modificáveis e\, c
 onsequentemente\, para a redução do risco cardiovascular.\n\nComo se pod
 e promover essa literacia em saúde?\nDevemos divulgar mensagens simples q
 ue ajudem as pessoas a apreender a informação de forma rápida\, apelati
 va e direta. Ou seja\, promover a literacia em saúde através dos meios d
 e comunicação social\, programas de televisão ou outros que possam ter 
 muita visibilidade\, nomeadamente difundir mensagens em locais estratégic
 os como as caixas de multibanco.\n\nPara quando uma estratégia nacional p
 ara a prevenção\, gestão e tratamento das DCCV?\nEssa é uma pergunta d
 ifícil de responder. Apesar de não termos nada definido nesse sentido\, 
 já temos uma série de estratégias que estão a ser colocadas em prátic
 a no âmbito de outros programas. Por exemplo\, na área cérebro-cardiova
 scular há uma estratégia relacionada com as diretrizes do European Stro
 ke Action Plan 2018-2030 e que\, de certa forma\, implica ter uma estrat
 égia nacional para cumprimos as metas que nos são propostas. Relativamen
 te à doença cardíaca\, a estratégia já faz parte do plano do PNDCCV e
  passa por continuar a diminuir a mortalidade cardiovascular. Como é que 
 isso se faz? Com prevenção\, prevenção e mais prevenção. Com a promo
 ção da literacia da população e a melhoria da interação com os médi
 cos de medicina geral e familiar e com o INEM (Via Verde Coronária e Via 
 Verde AVC). E também com a ajuda na implementação de novos meios comple
 mentares de diagnóstico [exames]\, uma vez que quanto mais rapidamente os
  doentes forem tratados\, menos doença cérebro-cardiovascular irão ter.
  Outra questão que pretendemos mudar e que tem assumido especial relevân
 cia\, mas que não é muito falada\, é a morte súbita. Quando o PNDCCV f
 oi criado\, o core do programa era o AVC e a síndrome coronária aguda.
  Mas\, neste momento\, também temos de pensar na insuficiência cardíaca
  e na prevenção da morte súbita. Espero que no início do próximo ano 
 possamos falar destas doenças nas diretrizes do programa.\nIgualmente imp
 ortante é a obrigatoriedade dos registos clínicos\, embora essa questão
  não dependa de nós. Enquanto a tutela não obrigar as direções dos se
 rviços hospitalares a facultar os registos clínicos da quantidade de cat
 eterismos\, quantas válvulas aórticas percutâneas são colocadas\, quan
 tos pacemakers são implantados\, etc\, nunca teremos a noção exata do 
 que acontece em Portugal.\n\nFoi apresentado recentemente o Plano de Emer
 gência para a Saúde com medidas para os próximos dois anos\, destacand
 o-se as áreas oncológica\, obstétrica e da saúde mental como prioritá
 rias. Relativamente às DCCV\, enquanto primeira causa de morte e de incap
 acidade prematura em Portugal\, não deveriam ser uma prioridade neste Pla
 no de Emergência?\nClaro que sim. Nós temos um excelente SNS\, que\, de 
 uma forma geral\, trata bem as situações agudas quando estas colocam os 
 doentes em risco de vida. No entanto\, as DCCV continuam a ser a primeira 
 causa de morte em Portugal\, matando mais do que alguns tipos de cancro. N
 ão percebo porque que é que também não foi dada prioridade a estas pat
 ologias. Acho que esta questão merece alguma reflexão\, mas se o governo
  decidiu desta forma\, temos de assumir que\, numa segunda fase\, vai prio
 rizar a doença cérebro-cardiovascular. E quando isso acontecer\, há mui
 to por onde melhorar. É preciso aumentar o número de camas para o tratam
 ento do AVC\, ter mais recursos humanos e melhorar a área da reabilitaç
 ão\, quer vascular cerebral quer cardíaca. Este é um aspeto fundamental
  no qual é preciso investir porque contribui significativamente para melh
 orar a qualidade de vida e a sobrevivência dos doentes.\n\nA coordenaçã
 o do PNDCCV e/ou os cardiologistas foram ouvidos antes da publicação des
 te Plano de Emergência?\nNão\, não fomos (nem a coordenação do PNDCCV
  nem os cardiologistas). Mas em relação ao plano\, a resposta é muito c
 lara. No plano de emergência não está espelhado nada sobre as doenças 
 cardiovasculares\, embora possa admitir que é esta uma área que\, apesar
  de tudo\, não está muito mal em Portugal. Mas há coisas a corrigir.\n
 \nApesar dos elevados investimentos em saúde\, os recursos atuais\, em te
 rmos de estrutura\, na generalidade\, estão muito desatualizados\, senão
  mesmo obsoletos. A degradação da carreira\, das condições de trabalho
  e de oportunidades de formação dos profissionais no SNS são problemas 
 atuais. O que falta em termos de estratégia?\nNós temos uma cardiologia 
 e médicos em Portugal de alta qualidade\, mas precisamos de arranjar form
 a de evitar que esses profissionais saiam do SNS\, nomeadamente os mais jo
 vens. Além disso\, necessitamos de mais técnicos de cardiopneumologia e 
 os médicos têm de deixar de fazer tantas tarefas administrativas para po
 derem fazer aquilo que é a sua expertise: ver os doentes. Há algumas á
 reas em que os médicos estão realmente cansados por serem poucos para o 
 trabalho que têm. Para inverter esta situação temos de ter mais recurso
 s humanos\, melhorar as remunerações e valorizar a progressão das carre
 iras médicas.
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