Entrevista a Maria João Correia, responsável pelas sessões de atividade física do programa “Do Passo ao Abraço”

Data Evento

6 de Março, 2024    
Todo o dia

Entrevista a Maria João Correia, responsável pelas sessões de atividade física do programa “Do Passo ao Abraço”

O programa de atividade física “Do Passo ao Abraço”, vocacionado para a pessoa idosa com cancro ou sobrevivente de cancro e focado na promoção de uma longevidade ativa e tratamento integrado, na melhoria da qualidade de vida e bem-estar e no combate ao isolamento social, arrancou no passado dia 4 de janeiro, na Junta de Freguesia da Ajuda. Conversámos com Maria João Correia, responsável pelas sessões de atividade física do projeto, sobre as especificidades destas sessões e os resultados, esperados e já percetíveis, das mesmas.

Os exercícios que prepara são específicos para pessoas com cancro ou sobreviventes de cancro, adaptados com base em evidência científica. Com que regularidade ocorrem as sessões, qual a sua duração, que exercícios são feitos e qual o seu foco?

As sessões têm duração de 45 a 60 minutos e acontecem duas vezes por semana, às terças e quintas-feiras. Incluem exercícios de força para os membros superiores e membros inferiores, exercícios com relevância para as atividades da vida diária, exercícios de sobrecarga com recurso a bandas elásticas, exercícios cardiorrespiratórios, exercícios de coordenação dos membros superiores com os membros inferiores, exercícios coordenados com a música, exercícios na posição sentada e exercícios com bolas/noodles de espuma/bastões de madeira. As sessões focam-se na melhoria da qualidade de vida, no combate ao isolamento social, em ajudá-los a perceberem que são capazes de muito mais do que aquilo que acham que conseguem fazer e em promover a evolução do individual para o coletivo, para reduzir o isolamento.

Quais são as especificidades na preparação de uma sessão de exercícios para idosos com doenças oncológicas ou que já as tiveram?

Há que ter sempre em conta as limitações de cada um, o cansaço crónico, as suas fragilidades, a organização do espaço, a escolha dos exercícios. A estrutura tem sempre de ser pensada de forma lúdica, na evolução do trabalho individual para o trabalho de grupo, de forma a desenvolver a parte social do grupo, promovendo a interação entre os participantes. Apesar de os exercícios serem importantes, a forma como os apresento é fundamental. Eu posso organizar algo muito bem estruturado, com princípio meio e fim, e ter de alterar, porque sinto que o grupo precisa de algo mais naquele dia, e tenho de estar sempre preparada para qualquer situação.

Por isso, o primeiro ponto é ser observadora. Cada pessoa é um ser com sentimentos que pode estar em fase estável, em tratamento, ou ter alguma limitação. É necessário estar sempre atenta a todos os que vêm fazer as aulas e perceber se posso pôr em prática aquilo que programei ou se terei de alterar um pouco a estratégia da aula. É sempre uma surpresa. A escolha das músicas é outro ponto muito importante, porque influencia fortemente a energia do grupo, a intensidade que consigo impor aos exercícios a trabalhar. Terceiro ponto: ter em conta as limitações, o cansaço, cada indivíduo, o grupo. O quarto ponto é procurar sempre a melhor estratégia para “roubar” sorrisos, ganhar a confiança de cada um para ajudá-los a acreditarem nas suas capacidades.

Como tem sido a adesão ao programa?

Nunca pensei que a maioria dos participantes aderisse tão bem, e logo na sua primeira aula. Tenho alunos que não falharam uma única aula, até hoje. Na resposta ao exercício, às coreografias que vou fazendo com eles, na coordenação dos membros com a música, na velocidade de execução, é maravilhoso como consigo tirar tanto deles, sem grande esforço.

Estamos a chegar às 50 pessoas. Há desistências, há falhas, devido a situações familiares, tratamentos, consultas, outros problemas associados ou não à doença, mas a maioria tem vontade de participar e só falta porque não consegue mesmo ir.

Quais podem ser os benefícios a longo prazo em termos de saúde, mas também de qualidade de vida e bem-estar deste tipo de atividade física para estas pessoas, enquanto pessoas idosas e enquanto pessoas que têm ou já tiveram cancro?

Eu já trabalho faz mais de 13 anos na Junta de Freguesia da Ajuda, desenvolvendo atividades principalmente com seniores com diferentes patologias, perda de entes queridos, companheiros de uma vida, e tenho aprendido muito com eles e como chegar a eles. E percebi que a construção de um bom grupo leva tempo, e nós somos aqueles que vão construindo uma boa base e que vão ajudar à coesão do grupo, e eles aos poucos vão fazendo o resto.

Com ou sem patologias é igual, todos precisam do mesmo, de amor, carinho, amizade, e quando há desequilíbrios eu estou lá para fazer a ponte, aliviar os stresses, pois nós não somos só aqueles que ensinam a controlar a respiração, a fazer bem os exercícios, temos de conhecer a sua história, as suas necessidades, os seus medos, as suas limitações. Também somos aqueles que perguntam se está tudo bem, que mandam mensagens, ou imagens cheias de boas energias, que dão um grande abraço quando chegam ou quando vão embora. Mas nem todos gostam assim tanto do contacto físico, temos de saber perceber isso, respeitar e fazer aquilo de que eles gostam.

Já é possível notar algum impacto nestas pessoas em termos físicos, mas também psicológicos e emocionais?

Sem dúvida. Na força, na capacidade respiratória, na mobilidade. A nível individual e em grupo, a força e a leveza com que fazem uma coreografia e o sorriso, como recebem a minha energia e conseguem fazer uma aula cheios de energia boa. Por vezes esquecem-se que têm limitações e vem uma dor que não faz parte, e eu tenho de lembrar que é preciso serem eles a controlar a intensidade, a amplitude, a velocidade. Mas o resultado é fantástico, ao fim de dois meses.

Um dos objetivos do projeto passa também pela redução do isolamento social, pela promoção da interação e conexão social entre os participantes. Qual é a sua perceção sobre os resultados destas sessões em termos sociais?

No geral eles são muito fechados e é essencial desenvolver um trabalho que os leve a interagir uns com os outros, que sintam que estar em grupo é muito saudável e divertido, e quando eu sinto que sou um sol para eles, quer dizer que estou a alcançar os meus objetivos.

Qual é a sua perceção sobre este tipo de iniciativas e intervenções comunitárias junto da população mais idosa e, neste caso concreto, com doenças oncológicas?

Eu fiquei muito feliz quando me fizeram o convite para fazer parte deste projeto. Já trabalho neste contexto faz alguns anos e a inclusão de pessoas com diferentes patologias ou perda de entes queridos é muito importante, porque aqueles que estão mais estáveis têm um papel de relevância no apoio aos que necessitam, e para eles também é importante, porque se sentem úteis. É importante mostrar que os resultados podem ser muito positivos, todos ganham. Eu acho que incluir idosos que têm doenças oncológicas em grupos heterogéneos será um próximo passo. É fundamental, quando fazemos um trabalho cujo foco é melhorar a qualidade de vida dos nossos alunos, o amor ser a palavra-chave, porque quando damos sem estar à espera de retorno, tudo aquilo que recebemos é uma vitória. Recebemos muito amor de volta e, se trabalharmos com prazer e diversão, os resultados são quase imediatos e assim promovemos a longevidade ativa.

 

Entrevista realizada por Mariana Ramos Loureiro.