Dia Mundial da Tuberculose 

Data Evento

24 de Março, 2024    
Todo o dia

Dia Mundial da Tuberculose 

Por José Mendes Nunes, sócio SPLS

A 24 de março de 1882, o Dr. Robert Koch anunciou a descoberta da bactéria causadora da tuberculose – Mycobacterium tuberculosis também conhecido por bacilo de Koch.

Esta descoberta abriu o caminho para o diagnóstico e tratamento de cura desta devastadora doença desde há milénios.

Celebrando esta data e o feito, a Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu este dia para lembrar a importância de continuarmos a luta contra a Tuberculose.

O tema escolhido para 2024 é: “Sim, Podemos acabar com a tuberculose” (Yes! We can end TB). Esta é uma mensagem de esperança e de incitamento para não desistirmos de continuarmos esta luta. Para isso, se deve dar sequência aos compromissos assumidos pelos Chefes de Estado na reunião de Alto Nível da ONU, ocorrida em 2023, para acelerar o progresso no controlo da tuberculose para o que é imperativo passar das palavras às ações efetivas.

Estas ações passam por investir em recursos para a assistência e informação que garanta o acesso universal aos cuidados de saúde e prosseguir na investigação científica nesta área do conhecimento. A tuberculose aproveita-se muito das desigualdades, afetando sobretudo os mais marginalizados e vulneráveis, que enfrentam mais e maiores obstáculos no acesso aos cuidados de saúde, por isso o combate a esta doença passa por se reduzir as iniquidades. Através da redução das iniquidades todos os sectores da sociedade têm a responsabilidade e a possibilidade de contribuírem para o controlo da tuberculose. O problema da tuberculose foi agravado pela pandemia da COVID.

As pessoas infetadas com Micobactérias têm um risco de adoecer com tuberculose, ao longo da vida, de 5 a 10%. Este risco de adoecer por tuberculose aumenta significativamente em pessoas imunodeprimidas, infetadas com o vírus da sida, desnutridos, diabéticos e fumadores.

Termino transcrevendo o apelo da OMS: “(só) mais investimentos em diagnóstico, tratamento, prevenção e assistência à tuberculose salvarão milhões de vidas evitáveis”.

 


Tuberculose, a doença do passado e do presente, que permanece como foco de atenção nos nossos dias

Por Hélder Carreira, sócio da SPLS

A tuberculose (TB) é uma das doenças infeciosas mais antigas e, apesar da existência de tratamento e cura, continua a ser causa de óbito de cerca de dois milhões de pessoas por ano, 98% dos quais em países em desenvolvimento.

Apesar do declínio na incidência e mortalidade desta doença, nos países industrializados, o surgimento de novas formas de TB, resistentes aos fármacos tuberculostáticos existentes, constitui atualmente um dos maiores problemas de saúde pública. O diagnóstico e tratamento destes doentes é um desafio para os atuais programas de controlo de TB, sendo imprescindível o desenvolvimento de estratégias que melhorem todo o processo desde o diagnóstico ao tratamento.

Estima-se que um terço da população mundial encontra-se infetado pelo bacilo da tuberculose. Em Portugal,analisando os dados de 2022, com o reporte de 1518 casos (1403 novos casos e 115 retratamentos), correspondendo a uma taxa de notificação de 14,5 casos por 100 mil habitantes e uma taxa de incidência de 13,4 casos por 100 milhabitantes, apesar da redução progressiva nos últimos 6 anos, Portugal continua a ser um dos países europeus com maior incidência da doença – superior a 10 casos por 100 mil habitantes1.

Embora a maioria de casos de tuberculose ocorra na população nativa, a proporção de casos em imigrantes tem aumentado substancialmente, correspondendo a 30,1% no total de notificações em 2022. O sexo masculinocontinua a ser o mais afetado (65,7% do total de casos), particularmente na fase adulta. Registam-se 2022, 91 óbitos por TB, o que corresponde a uma taxa de 8,6% na totalidade dos casos1.

A TB é uma doença infectocontagiosa causada pelo complexo Micobacterium tuberculosis (Mt) a, também conhecida como bacilo de koch.

Continua a ser um dos maiores problemas mundiais de saúde pública, morrendo ainda hoje mais pessoas porTB do que por qualquer outra doença infeciosa curável. Por esta razão, a OMS declarou esta enfermidade comoemergência global de saúde pública. Estima-se que surjam nove milhões de novos casos por ano e que, destes, 1,8milhões acaba por morrer. Estes números são particularmente impressionantes se considerarmos que estamos perante uma doença curável2.

Podendo haver várias formas de entrada no organismo, a via aérea é a implicada na quase totalidade dos casos, dando-se a transmissão de pessoa para pessoa, através da inalação da bactéria, depois de expirada pordoentes com TB pulmonar ou laríngea através da tosse, espirro ou da fala3.

Embora possa afetar qualquer pessoa, atinge principalmente os mais vulneráveis, idosos, crianças e doentes crónicos imunocompremetidos b.

O desenvolvimento de TB leva ao aparecimento de sinais e sintomas sistémicos, como perda ponderal superior a 10%, febre de predomínio vespertino, sudorese noturna, astenia, irritabilidade e cefaleias, sendo aintensidade dos mesmos, por regra, proporcional à duração e extensão da doença4.

Atualmente, para o diagnóstico da TB são usados diversos meios complementares de diagnóstico, destacando-se: imagiológico (raio x), microbiológico (exame bacteriológico direto e cultural), sensibilidade aosAntibacilares (ATB), anátomo-patológico (aspirados, biopsias, etc), molecular, teste tuberculínico ou prova deMantoux (PT) e teste de deteção de interferão-gama (IGRA). É vital uma celeridade no diagnóstico para o controlo de TB, no sentido de permitir a implementação de esquemas de tratamento adequados, levando à redução das fontesde infeção e diminuição do risco de transmissão na comunidade5.

O tratamento da TB procura curar o doente e restabelecer a sua qualidade de vida e produtividade; prevenir a morte por TB ou pelos seus efeitos colaterais; prevenir o seu reaparecimento; reduzir a transmissão à comunidade; e prevenir o desenvolvimento e transmissão de resistências6. Um tratamento eficaz é longo (em média9 meses) e composto por duas fasesb envolvendo a associação de vários ATB: vários ATB: rifampicina (R), isoniazida (H), pirazinamida (Z), etambutol (E).

De forma a garantir o sucesso dos cuidados, a administração da medicação é feita diariamente, em regimede toma observada direta (TOD) com ações imediatas em caso de falta de comparência ao tratamento.

Em Portugal, para responder à necessidade de cuidados de saúde especializados na TB, existem os Centros de Diagnóstico Pneumológicos, agora designados de Consultas Respiratórias na Comunidade (CRC), enquanto serviços que permitem gerir o diagnóstico e tratamento da doença de forma integrada na comunidadeestabelecendo parcerias de atuação com os cuidados de saúde primários, instituições hospitalares e diversasestruturas comunitárias. São constituídos por equipas multidisciplinares de médicos, enfermeiros e administrativos com formação especializada na área suportada com as mais recentes “guidelines”, protocolos de diagnóstico e tratamento da doença. Para orientação de casos de TB multirresistente ou TB infantil, existem alguns CDP com diferenciação para o seu atendimento.

Os CRC integram as novas Unidades Locais de Saúde, articulando-se localmente com os serviços existentes nas mesmas, bem como estruturas nacionais, no cumprimento do Programa Nacional para a Tuberculose.

 

a Apesar da diversidade de micobactérias, a maioria dos casos de doença nos humanos é causada por sete espécies ou complexos: tuberculosis, M. leprae, M. avium-intracellulare, M. kansasii, M. fortuitum, M. chelonae e M. abscessus (Murray, et al., 2000).

b A primeira fase, de indução, visa a eliminação dos bacilos em multiplicação e latentes, tendo como objetivo quebrar a transmissão o mais rapidamente possível, converter os exames direto e cultural e melhorar os sintomas. A segunda fase, de manutenção, visa a eliminação da maioria dos bacilos residuais e adiminuição do número de falhas terapêuticas e recaídas.

 

Referências bibliográficas

  1. Direção Geral da Saúde (2022). Relatório de Vigilância e Monitorização da Tuberculose em Portugal 2022. Lisboa.
  2. Fundação Portuguesa do Pulmão,
  3. Frieden, ; Sterling, T.; Munsiff, S.; Watt, C.; Dye, C. (2003). Tuberculosis. Lancet, 362:887-99.
  4. Lawn, ; Zumla, A. (2011). Tuberculosis. Lancet, 378:57-72.
  5. Bento, ; Silva, A.; Rodrigues, F.; Duarte, R. (2011). Métodos Diagnósticos em Tuberculose. Acta Med Port; 24:145-54.
  6. World Health Global Tuberculosis Report 2012.