Conversas da Embaixadora — com Ana Paula Reis

Data Evento

12 de Fevereiro, 2024    
Todo o dia

Conversas da Embaixadora — com Ana Paula Reis

Esta é uma rubrica que serve para mostrar as dimensões da pessoa com deficiência, o seu potencial e a capacidade de transformação do ambiente à sua volta. 

A ocupação e fundamental e a representação da Ana Paula Reis é um marco muito importante desta reabilitação que cada ser humano deve aspirar dia a dia. Através de pequenos vídeos, e ao longo do tempo, Ana Paula Reis vai trazendo um pouco da sua experiência como mulher ativa, pensadora, otimista e sempre com esperança. Obrigada à Ana Paula Reis por estes momentos tão especiais.

Importância da partilha e do apoio



Como manter a mente ocupada?

A importância do tempo livre


O bom caminho da meditação


A origem desta rubrica

 


Entrevista a Ana Paula Reis, autora da rubrica “Conversas da Embaixadora”

Prestes a estrear a rubrica “Conversas da Embaixadora”, em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde, Ana Paula Reis conversou connosco sobre a sua história e percurso e sobre este novo projeto.

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Na vida, Ana Paula Reis tem feito “um pouco de tudo”, mesmo depois de aos 29 anos um acidente a ter deixado numa cadeira de rodas.  “Depois disso, é refazer tudo, aprender tudo de novo, tentar dar uma volta à vida…”, conta.

Durante cerca de 15 anos fez exclusivamente voluntariado – fez atividades com crianças na ludoteca do Hospital Dona Estefânia, moderou o clube de leitura da Livraria Bolhosa de Entrecampos, deu aulas de francês na Universidade de Sénior, fez formação de voluntários para a Câmara Municipal do Montijo, participou nas campanhas da Liga Portuguesa da Luta contra o Cancro, trabalhou nos bastidores da Ajuda de Mãe, coordenou o banco de voluntariado da Junta de Freguesia de Linda-a-Velha, foi voluntária no Departamento de Relações Públicas da Fundação Liga, deu aulas de inglês no Centro de Medicina de Reabilitação, participou num projeto acessibilidades nas conversas… Viria depois a surgir uma proposta de trabalho numa agência de viagens especializada para pessoas com deficiência, que a lançaria de novo no mundo do trabalho. Anos depois, cofundou a cooperativa de serviços e solidariedade social Mil Acessos, e, entretanto, no Hospital do Gato, já desempenhou funções como administrativa e no apoio ao luto animal.  Ainda dá explicações e, porque o voluntariado não deixou de ter espaço no seu horário, fá-lo atualmente também numa linha de apoio emocional. O próximo desafio é a rubrica “Conversas da Embaixadora” em colaboração com a SPLS, na qual já tem trabalhado e que será em breve lançada.

Durante a sua vida procurou sempre manter-se ativa. Porque é que é importante esta proatividade na procura de uma ocupação?

Porque eu acho que nós “morremos” um bocadinho quando paramos. Eu estou em cadeira de rodas e há um certo tipo de trabalho e de voluntariado que não posso fazer, mas posso fazer muita coisa através do computador ou através das minhas mãos, tenho capacidade motora…É importante para a cabeça e porque, quando não estamos ocupados, o nosso cérebro começa a parar, para além de pensarmos nas coisas mais negativas, mais tristes que nos aconteceram, nos momentos mais difíceis e fases mais dramáticas da nossa vida.  Esta atividade, seja ela a nível profissional, a nível de voluntariado, a nível social ou a nível familiar, é importante.

Para além destas atividades, irá em breve colaborar com a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde através da rubrica “Conversas da Embaixadora”. Em que é que vai consistir e quais são o intuito e os objetivos da rubrica?

A base do projeto é conversas informais, naturais, espontâneas, do que pessoas com mobilidade reduzida, pessoas com deficiência, podem fazer. Eu acho que o que as “Conversas da Embaixadora” fazem é mostrar um bocadinho que qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa. A pessoa tem uma limitação, mas pode encontrar uma coisa de acordo com a sua limitação e cuidar um bocadinho de si, não só fisicamente, mas mentalmente, que é muito importante. Se a pessoa não pode cozinhar ou correr, pode provavelmente fazer outras coisas. Eu acho que é um bocadinho isto, é mostrar uma pessoa com deficiência, eu, a fazer vários tipos de coisas. Não faço assim, faço assado. Por exemplo, eu faço jantares cá em casa. Tenho mais dificuldade, mas arranjei um estratagema: quando trago os pratos para a mesa, ponho no colo um saco grande com uma alça que passa no meu pescoço e ponho lá para dentro pratos, talheres, copos, e, depois, venho à mesa pôr. São estas coisas pequeninas que eu acho que as “Conversas da Embaixadora” querem mostrar.  É um bocadinho desmistificar a nossa deficiência, seja ela qual for, aprender a viver com aquilo que nós temos, seja o que for. Há um provérbio muito famoso que é “não tens cão, caça com gato”. Não interessa qual é a deficiência, a pessoa pode fazer um monte de coisas.

Como é que surgiu a ideia da rubrica e porquê a escolha deste título?

Em 2010, fui convidada para ser embaixadora na Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social. E eu fui uma embaixadora muito ativa, estava sempre em todo lado, a ler poemas, a fazer capoeira – que eu não fazia, mas batia a pandeireta -, fui a Santarém, fiz origami… Estava sempre disposta para fazer tudo e, por essa razão, fui convidada também para ser a Embaixadora a fechar o Ano Europeu em Bruxelas. A doutora Cristina Vaz de Almeida deve ter-me visto sempre ativa para todo lado e acho que pensou “ela é tão ativa, se calhar era interessante pôr este título”.  Eu entendo o título como embaixadora que leva um bocadinho de si a todos os campos, a todas as pessoas.

Porque decidiu associar-se à Sociedade Portuguesa da Literacia em Saúde? Que relevância vê na promoção da literacia em saúde?

Eu, primeiro, acho que é uma coisa fundamental na sociedade atual, com que nós temos de aprender a lidar. Todos nós em algum momento da nossa vida perdemos um bocadinho a saúde e não percebemos. Eu acho que é muito importante documentarmo-nos, informarmo-nos e sabermos, em primeiro lugar, por isso. E, depois. porque eu sou uma fã acérrima da doutora Cristina Vaz de Almeida, admiro-a muito. E acho que é notório que se dedica de corpo e alma, até dá mais do que aquilo que ela tem, a nível de projetos, de apoios, de ideias, de tudo. E é também por essa razão.

De que forma tem sentido na sua vida pessoal a importância da literacia em saúde?

Há quatro anos surgiu-me um problema devido à circulação: um linfedema tardio e a doença periférica arterial. E eu não percebia nada disto e o meu médico, na altura, explicou-me tudo, falou comigo de uma maneira simples, de uma maneira não rodeada de nomes ligados à medicina. Eu acho que é importantíssimo o conhecimento, é importantíssimo eu, que sou paciente, entender o que os médicos, enfermeiros, terapeutas, toda a gente ligada à área da saúde sabe. A simplicidade com que é explicado a um paciente, fazer com que o paciente interaja com os vários profissionais na área da saúde, eu acho que é realmente importante e acho que a saúde em si só tem a ganhar. Quanto mais informado for o paciente, quanto melhor esta ligação e esta conversa informal, melhor é para o paciente, mas também melhor é para o médico, para a enfermeira, para o terapeuta. E eu tenho tido, ao longo destes quatro anos, profissionais que me apoiam, que me ajudam, que me ensinam e com quem eu tenho uma ligação. Todas estas coisas são conhecimentos, informação, e só temos a ganhar todos. Eu tenho sentido na pele isso.

Entrevista conduzida por Mariana Ramos Loureiro.